Por Ricardo Flaitt, Alemão.
Sou contra análises precipitadas, movidas por argumentos passionais e imediatistas. O futebol, assim como a vida, é resultado de uma confluência de decisões e acasos.
Para uma análise mais justa e precisa é necessário transitar do particular ao universal, e vice-versa. Ou seja, é preciso analisar desde a partida mais recente e partir para uma análise do todo, num exercício dialético permanente.
O São Paulo não vive seus melhores dias. As últimas vitórias frente à Ponte Preta (3 x 0) e o Bahia (2 x 0), no Morumbi, representam pouco no todo, pois a equipe não joga bem, ainda não encontrou um padrão de jogo, apresenta uma apatia preocupante e alguns bons jogadores (como Cortez) vem diminuindo seu rendimento.
Não estou aqui validando nem criticando a diretoria. Mas é preciso ter discernimento de que a diretoria não foi omissa como ecoam as vozes das arquibancadas.
Trouxe bons jogadores como Luís Fabiano (um craque, titular da Seleção na Copa da África, que muitos não sabem, abriu mão de ganhar mais no Corinthians para retornar ao São Paulo), Cortez, Fabrício, Jadson (que infelizmente parece não vingar no Tricolor) e criou as condições para revelar grandes promessas como Ademílson.
Não temos o poder total de decisão na vida. As ações humanas encontram limites no imprevisível. Não podemos condenar a diretoria pela contusão dos jogadores. Wellington vinha apresentando um futebol acima da média, mas praticamente machucou-se sozinho, e, com isso, parece que perdemos todo o meio-campo em formação. Ficou um vácuo.
Fabrício, então, precisa benzer-se; mas é um bom jogador e penso que vai dar resultados no ano que vem ao SPFC. Sou totalmente contra a política de alguns clubes que fritam o jogador, jogam para a torcida diante de contusões. É preciso, acima de tudo, ter ponderação e respeito ao profissional e ao ser humano.
Cañete é outro bom jogador. Mas que também não está tendo sorte. Mais uma vez é preciso ter calma, evitar o atropelo do tempo da vida e esperar para, ao menos, dar uma sequência a um jogador que chegou tão credenciado.
O único que me faz rondar dúvidas sobre sua evolução é Jadson. Parece não se encaixar e não ter a bola toda que disseram ter. Mas, de acordo com o que disse antes, também não acho justo queimá-lo numa fase em que o time todo precisa de reforços e padrão de jogo.
Quanto ao padrão de jogo, fato é que também não podemos condenar Ney Franco. Primeiro que alguns setores não contam com jogadores bons e competitivos.
O time é falho. A diretoria acertou ao contratar o bom Tolói, mas, por outro lado, Rhodolfo vem falhando demais. Mas é evidente que precisa de, no mínimo, mais um zagueiro acima de média (afinal, ficamos mal acostumados assistindo verdadeiros espetáculos nos tempos de Miranda, Lugano, Alex Silva, André Dias, Breno...).
O meio-campo é uma ilusão de ótica. À exceção de Denílson (que começou jogando só com o nome no ano passado, mas depois reencontrou seu futebol) não há um volante de marcação. Fabrício e Wellington, como foi dito, estão machucados.
O que dizer então de Casemiro? O garoto é muito bom de bola, mas precisa abaixar uma bola moral. Parece perder-se/queimar-se entre as vaidades das volumosas cifras e famas-relâmpago do futebol, que impregnam por um glamour que depois te abandona e te leve ao ostracismo.
Quando quer jogar e está focado é soberano no meio-campo. Quem duvidar, basta lembrar seu potencial revendo a primeira partida entre São Paulo e Santos, pelo Campeonato Paulista. Vitória de 3 a 2 tricolor e excelente atuação. Talvez Casemiro precise de fato é rever esse vídeo-tape e reencontrar-se consigo.
Ney Franco não conta com um elenco completo. Mesmo com boas contratações vivemos uma ilusão coletiva, quase um delírio, porque muitos daqueles que chegaram só ficaram na mente, no imaginário de um time ideal que, com o tempo, não se formou na realidade dos gramados.
O que se estabeleceram foram imensas fendas nos três setores, ainda mais acentuadas pelas ausências geradas pelas contusões.
Ney Franco terá também que mostrar seu poder de organização para ordenar uma equipe sem face, desfalcada, que vive uma crise de identidade. Cabe ao bom técnico conectar o grupo.
Diante de tantos problemas, que vitórias inexpressivas insistem em esconder debaixo do gramado, Ney Franco e a equipe do São Paulo terão um grande desafio pela frente: enfrentar o Corinthians, atual melhor time do Brasil e da América.
Não só pelos títulos e a rivalidade (que pesa), mas pelo elenco que tem, a união que demonstra dentro de campo, os talentos como de Paulinho, o padrão de jogo implantado por Tite ao longo de dois anos, e uma vontade imensa de vencer.
A partida entre Corinthians e São Paulo, domingo, no Pacaembu extrairá uma síntese, positiva ou negativa, que circulará nos corações, mentes e corredores do Morumbi.
O clássico representa um marco divisório nessa fase do SPFC. Será o momento em que diretoria e comissão técnica poderão avaliar, na prática, quem tem condições e quem não tem de permanecer no Tricolor.
Não estou afirmando aqui que se um jogador for mal nesta partida terá que ir embora do SPFC. Mas sim que a atuação nesta partida, sob esse contexto, somada à análise do que vem desenvolvendo ao longo do tempo, servirão como parâmetros para futuras decisões. Como disse no começo do texto, do particular para o universal.
Mas, sem dúvida, será um jogo decisivo para se estabelecer o real potencial do time. Ponto de referência para que a reforma estrutural, iniciada no final do ano passado, possa continuar de forma coerente, ainda mais em tempo de caixa opulento para contratações.
DUAS NOTAS:
1) A primeira sobre a torcida, que precisa comparecer e prestigiar o time. Temos exemplos de times que caíram para a segunda divisão e contaram com estádio repleto na liga de acesso.
2) Aqueles que criticam Luís Fabiano e chegam até a pedir a sua saída do SPFC só podem estar jogando contra o próprio time. LF9, mesmo não atuando direto, é o atual artilheiro do SPFC com 20 gols. Isso tudo num time capenga, com muitos desfalques e uma bola que não chega redonda nunca nos seus pés. Mesmo assim está fazendo o impossível.
Ricardo Flaitt, Alemão, é jornalista e historiador. Colunista dos sites Isto é SPFC (http://






